Oração vocal, meditação e contemplação: o que as distingue na tradição cristã

Existem três modos de oração reconhecidos dentro da tradição cristã. Vocal, meditação e contemplativa. Eles não são formas concorrentes de orar a Deus mas sim se complementam em seu diálogo com Ele através do recolhimento do coração.
É sobre como eles o usam e aonde eles chegam. A meditação é sobre passar pelo corpo e pela palavra; a contemplação é sobre ver e ouvir para o propósito de compreender e aderir; a contemplação é sobre o olhar fixo da fé em Jesus, revelado através de um dom. Esse reconhecimento é essencial para evitar a denigração da oração diária e a confusão entre o humano e o divino.
Três expressões de uma mesma vida de oração
A tradição da fé cristã tem preservado a oração através de três formas principais de orar: a oração vocal, a meditação e a contemplação. Todas elas compartilham de um traço fundamental comum que é o recolhimento do coração. Sem ele, nenhuma dessas formas passa de gesto exterior ou exercício intelectual.
O fato de eu querer falar de três formas não implica em nenhum tipo de hierarquia, a primeira sendo primitiva e a terceira destinada apenas a profissionais. Implica sim que um homem ora usando todo o seu corpo e mente com todos os seus sentimentos e também o silêncio.
Distinções devem levar as pessoas e não categorizar almas. Um indivíduo pode ter se envolvido por anos em orações vocais apaixonadas enquanto outro pode ter permanecido em silêncio nos primeiros anos de contemplação. Não se trata de misturar os dois ou pedir algo a alguém que pertence a outro lugar.

Oração vocal: o corpo que fala com Deus
A oração oral é indispensável na vida cristã. Jesus Cristo mesmo, ao ensinar aos seus seguidores a Oração do Senhor, disse-lhes para orarem com a boca. Não é um degrau inferior que abandonamos com a maturidade; é uma forma permanente de estar diante de Deus.
Por que rezar em voz alta
O homem é composto tanto de corpo como de espírito. O homem tem a necessidade de canalizar emoções para fora e de novo para dentro e aqui os gestos são úteis. São Bento chamou o homem a ter sua mente e sua voz coordenadas para que o corpo e os pensamentos não se percam de sincronia.
A outra forma de rezar em voz alta também tem uma dimensão comunitária. A liturgia, o terço e as orações da manhã e da noite sustentam a fé tanto de quem as reza como de quem as ouve. A palavra dita compromete.
Palavras e fervor do coração
Mas importa menos quantas palavras existem do que o quão ardente seja a alma. Ao repetir muitas fórmulas sem atenção poderemos estar apenas gerando ruído… Pode valer mais dizer apenas um pouco, mas com o coração. A tradição insiste neste ponto para que nossas orações não se tornem um exercício de contabilidade.
Um critério prático: Quando a voz corre mais depressa do que a atenção consegue acompanhar, pode ser necessária uma desaceleração ou mesmo apenas um momento de pausa breve entre as frases. O corpo pode ajudar mas não substitui o coração.
Da voz à contemplação
A oração vocal pode ser uma primeira forma de contemplação. É onde através da atenção e do amor a palavra dita vai experimentar o silêncio. Alguém que reza o Pai-Nosso de maneira lenta pode descobrir que já não está apenas a falar; ele está sim a escutar.

Meditação cristã: buscar compreender para aderir
Em primeiro lugar a meditação é um intento, porque a alma tenta fazer sentido de “porquê” e “como” se deve viver como um Cristão, tentando atender aos pedidos de Jesus para com ele. Neste ponto a meditação ainda permanece um processo antes da oração; é um estágio de preparação.
Uma busca, não um vazio mental
A meditação cristã leva o pensamento, a imaginação, a emoção e até mesmo o desejo à ação. Isso a torna diferente de alguns dos exercícios usados no Oriente para limpar a mente. A meditação cristã não tem medo do assunto ela o enfrenta, o desfruta, deixa que ele a desafie.
Não se trata apenas de construir sobre a própria fé mas sim de aprofundar as convicções da fé de cada um para que possa acontecer uma conversão do coração e dar força à vontade para seguir Cristo. É um esforço humano, mas feito na presença de Deus e com a sua graça.
O papel dos textos e da vida
Uma pessoa sempre pensa no livro: As Escrituras Sagradas em especial, o Evangelho, os ícones, os hinos do dia ou da festa, os escritos dos pais santos. A meditação exige um texto ou então fica dispersa.
Pensar no que se lê faz com que se assimile através do confronto consigo mesmo. Depois se abre outro livro – o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade e da reflexão sobre ideias de volta à própria história. Aqui está a passagem da meditação para a oração, e não apenas o estudo.
Para onde a meditação conduz
A meditação visa a união com Cristo mas não resulta nela. Ela prepara o terreno. Mas quando a reflexão se torna encontro e o pensamento se cala diante de uma presença, então você chegou a outro registo.

Oração contemplativa: o olhar de fé fixo em Jesus
A oração contemplativa é o olhar firme através da fé em Cristo. Ao descrevê-la Santa Teresa explica que é tratar de amizade com Quem sabemos que nos ama, geralmente passando o tempo apenas com Ele. É comunhão, não análise.
Amizade com Quem nos ama
A meditação também é possível neste estado, porém seus olhos estarão voltados somente para o Senhor durante todo esse tempo. Assim a própria meditação se torna a ferramenta que será utilizada momentaneamente; o centro é Ele.
Isto é graça, isto é um dom. Este dom só pode ser acolhido num estado de pobreza e humildade. Assim sendo não pode ser conquistado nem adquirido com técnicas. Recebe-se.
Dom acolhido na humildade
Mas como a contemplação se acomoda facilmente no homem não depende necessariamente de boas condições. Pois a meditação precisa de algum tipo de energia para que alguém possa meditar sobre algo, pode não acontecer sempre quando nós quisermos mas o caso da contemplação é diferente.
Um dado que surpreende: A tradição fala que a contemplação é algo que até mesmo quem não consegue ler ou raciocinar com facilidade pode fazer. O que permite isso não é a capacidade intelectual, mas sim a fé e a caridade.
Silêncio que escuta
A reflexão é ouvir a Palavra de Deus. Não é ativa mas sim a obediência que flui pela fé, a aceitação completa e o amor. Receber é do aquele que se comunica.
Aqui, porém, a língua não é mais o discurso, a língua se torna a faísca da chama dentro do próprio amor. Às vezes um único palavra pode durar por muitos anos. O silêncio aqui não implica a falta de conteúdo; antes significa atenção plena.

O que distingue e o que aproxima os três modos
A diferença se baseia nos três enunciados em relação ao que eles mobilizam, como a palavra opera e o uso da graça. A tabela abaixo mostra os critérios para a teologia.
| Critério | Oração vocal | Meditação | Contemplação |
|---|---|---|---|
| O que mobiliza | Corpo, voz, atenção; a mente em sintonia com a voz | Pensamento, imaginação, emoção e desejo | O olhar de fé e a escuta obediente |
| Papel da palavra | A palavra dita, com fervor mais do que quantidade | A palavra lida e confrontada com a vida | A palavra como acendalha do amor, não como discurso |
| Objetivo imediato | Exprimir e sustentar a oração interior | Compreender para aderir e converter-se | Permanecer em amizade e comunhão com Deus |
| Relação com a graça | Esforço humano acompanhado pela graça | Busca ativa iluminada pela fé | Dom acolhido na humildade e na pobreza |
Há mais um envolvimento da iniciativa humana na oração vocal e na meditação do que na contemplação. A contemplação, por outro lado, é descrita como a graça que se recebe. Mas isso não quer dizer que as primeiras sejam menos espirituais, mas sim que a última é mais claramente dom.
Como se articulam no caminho de oração
Eles não constituem etapas ou modos rígidos que se sucedem. A voz pode dar lugar à contemplação, a contemplação pode coexistir com a meditação sem descartar a oração vocal. A vida de oração é caracterizada por etapas e não por níveis rígidos.
Não são compartimentos estanques
Uma pessoa que pratica a meditação pode experimentar um momento de silêncio quando não há mais pensamentos apenas a visão e uma pessoa que ora em voz alta pode perceber que sua palavra se transforma em uma presença. Isso não acontece através de uma prática diferente mas através de práticas comuns.
A meditação continua acontecendo mesmo para aqueles que sabem sobre meditação. Alguns dias são destinados para pensar, reler e confrontar. A oração não acontece em uma linha.
A contemplação não é privilégio de alguns
Pode haver momentos em que você não conseguirá meditar, mas nunca haverá um momento em que você não possa entrar em contemplação por causa de qualquer doença, do trabalho ou mesmo do afeto que esteja acontecendo na sua vida.
A contemplação não é algo que se ganha através de orações frequentes mas sim é uma bênção divina concedida às pessoas que estão prontas para recebê-la.
Palavras que alimentam o silêncio
As palavras são apenas faíscas na contemplação, já que por meio delas acendemos o fogo do amor em nós mesmos. É por isso que a oração vocal nunca é esquecida, já que lá ela fornece as palavras às quais o silêncio depois saboreia. Uma frase do Evangelho pode sustentar o silêncio por uma hora.
Seria melhor não forçar. Ore da melhor maneira que puder, com fidelidade, e deixe o resto nas mãos da graça. A tradição não exige urgência, mas sim perseverança.

Perguntas Frequentes
Quais são os tipos de oração reconhecidos pela tradição cristã?
Essas três formas de oração foram mantidas pela tradição do Cristianismo. Elas incluem orações verbais ou vocais, meditações e a oração da contemplação. São semelhantes porque todas elas envolvem o processo do coração se afastar de tudo.
Qual é a diferença entre meditação e contemplação?
A essência da meditação é basicamente a da busca, já que a alma quer compreender "porquê" e "como" viver um vida cristã através de certos livros e fazendo comparações com a própria experiência. O ato da contemplação por outro lado se refere à fixação dos olhos da alma em Cristo que é o trabalho da graça que vem na humildade.
O que é a oração contemplativa?
Isso é para honrar um relacionamento com alguém que conhece o nosso coração, como Santa Teresa o explica, "muita conversa que temos todos nós mesmos com esse amado". É descrito como um olhar de fé em Jesus Cristo e uma escuta humilde da Sua Palavra.
A oração vocal é menos importante que a meditação?
Não. A oração vocal é indispensável na vida cristã: Jesus nos ensinou sua própria oração do Pai Nosso na forma vocal. O que importa aqui não é a quantidade de palavras ditas mas o fervor da alma. Além disso a oração vocal pode se tornar a primeira forma de contemplação.
Qualquer pessoa pode chegar à oração contemplativa?
Sim, nessa contemplação há um dom e não exige condições adequadas. Não se pode meditar a qualquer momento mas pode-se contemplar mesmo estando saudável, sem trabalho, sem afeto de alguém ou de qualquer outra coisa. O que permite que alguém faça isso é a caridade e não a inteligência.
